Escritor de livros infantis Paulo Netho
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Quem é o

Paulo Netho

Paulo Netho nasceu em Osasco, em 07 de setembro de 1964. Poeta e locutor.

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Quem é o Paulo Netho
Respirar por metáforas
Respirar por metáforas

Publicada em 15/06/2021

Lembro-me do tempo em que os grilos ainda cricrilavam por todos os cantos da Vila Yara. Menino, eu criava e empinava os meus papagaios, transformava cadeiras em traves, fios de cortina em redes, sacolas de plástico em rabiolas...

Pela manhã, assim que pedia a bênção e bebia o pretinho fumegante com pão sovado que mãe me servia, atravessava a Rua Benedito Américo de Oliveira e me sentava na calçada, do outro lado da rua, no portão da casa da Dona Alexandra e do seu Demétrius, um casal muito simpático de russos que ali viviam.

De olhos fechados, todos os dias, religiosamente, era assim que eu recebia os primeiros raios de sol da manhã.

Já na adolescência, com essa cara de metáfora que o Deusinho me deu, disse ao meu pai que não ia dar mais para ser o bancário que ele tanto queria que eu fosse. O Geraldão ficou tão bravo, bravíssimo. Saiu pelo quintal pisando pesado e resmungando:

— Puéta! Puéta!

Poesia, metáfora... Essas coisas não cabiam na cabecinha dele. Eram o mesmo que uma doença terrível, assim como o crupe que tive aos sete anos. O crupe impedia a minha respiração — bem diferente das metáforas, que são outro jeito de respirar.                                                                    

E munido de metáforas, enfrentei os meus medos e comecei a construir tudo o que me faltava. Olhava para uma coisa e enxergava outra. Confesso que já tive cara de tudo: de paisagem, de nuvem, de insegurança, de vergonha, de pau, de beco sem-saída...

Muitos anos depois, me pego alhures completamente imerso em meus pensamentos, a observar um avô que se entrega à graça genuína de um netinho que cambaleia alegre pelo chão fértil das primeiras descobertas sem se importar com bulhufas. Felicidade deve ser isto, a comunhão destes dois.

Nisso, um fiapo de cão atravessa vagarosamente o azul e se apresenta de orelha abanando e rabinho espanando a uma moça que sonha de olhos abertos ao pé de uma árvore frondosa. Deve estar querendo da bela um carinho não combinado. Veladamente, mistérios são trocados.

O avô brinca com o netinho no escorregador, no chão, revolvem a terra, mas o pequeno quer mais do homem que agora o balança na gangorra. Com os olhos semicerrados, o menino abre os braços e rodopiando diz ao avô que é tão forte quanto um super-herói. Vendo tudo isso, puxo para mim, com o rastelo da memória, essas dádivas do cotidiano.


Mas chega um tempo em que a gente se assemelha às coisas, aos bichos. A minha irmã, quando me via com a Natasha, a minha saudosa cadela, despencava no riso e

enquanto ria, com o dedo indicador apontado para a cadela e para mim, dizia aos soquinhos:

— Você... Você... Tem... A cara... A cara... Da Natasha!

E ria tanto e gostosamente.

Como se vê, mais gente é capaz de olhar para uma coisa e enxergar outra. A minha irmã ou é espirituosa ou também foi contagiada pelas metáforas.


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